
Otávio, menino franzino, bem pouco popular em meio às outras crianças de sua idade, tipo de garoto que prefere os recantos mais desertos, mas, mesmo assim, sorrateiros olhares insistiam em atingi-lo, deixando sua face ainda mais rosada. Pela calçada caminhava contando os passos para não se perder, pois sempre se distraia com os beija-flores, acompanhava os seus vôos até uma próxima parada, numa outra rosa, achava bonita a mistura das cores das penas com as das flores.
De tanto observar o voar desses pequeninos passarinhos, reconhecia a distância todos os tipos de beijos que eles davam, possuíam uma incrível habilidade de num simples toque extrair por entre as pétalas, o escondido néctar, uma espécie de poção que os deixava diferentes, como se houvessem saboreado um doce enfeitiçado com felicidade. Agora, saciados, eles partiam em outras direções, simplesmente furando as nuvens ou desviando de algum poste. Porém, de súbito, ao passar por uma copa florida eles pairavam no ar e como se existisse algum tipo de encanto, estavam dispostos a mais um selinho, e assim, Otávio ia acompanhando o namoro dos beija-flores.
Seus dias eram quase sempre iguais, a não ser quando tinha aulas de Geografia, eram as únicas aulas que não se sentava na frente, nessas, ele preferia ficar ao fundo, chegava mais cedo, arrastava sua carteira favorita e punha-se no último lugar da fila do meio. Com um simples abanar de cabeça cumprimentava os colegas que o olhava, os outros não, esses, ele apenas observava aonde iriam se sentar. Ia contando um a um, até perder os números quando aparecia na porta aquela imagem que lhe furtava um leve sorriso. Rapidamente sua timidez lhe denunciava e tinha nas bochechas ruborizadas o contra tempo das batidas de seu coração.
Disfarçado por trás de uma folha branca, ele perseguia atentamente cada movimento daquela criatura, ao menor barulho desviava o olhar e voltava logo em seguida, atônito via em seus gestos a sutileza do vôo dos beija-flores a rodopiarem diante a uma rosa, nos olhos a cor das folhas, na mão estendida que escrevia sobre os oceanos no quadro o toque suave do beijo, e ele paralisado só conseguia desenhar no caderno o seu retrato, a leveza nos riscos, a sombra nas curvas, tinha uma preocupação imensa com os pormenores, como se aquele momento fosse feito para os dois, mas, os minutos pareciam correr e como em todas as outras aulas soou o sinal, era hora da despedida, apesar de querer sempre ficar um pouco mais, e num breve aceno, o tchau. O lápis caia sobre a mesa e com fúria rasgava mais uma folha, nunca dava tempo para terminar o desenho. Todos sempre ficavam inacabados, faltando algum detalhe. Como uma rosa sozinha a espera pelo beijo de um beija-flor.