
Era sábado, havia acabado de tirar a mesa do almoço, uma moleza no corpo, uma vontade de se entregar a cama, deixar com que a ação pós-feijoada tomasse conta de seus sentidos, mas na pia ainda muitos pratos e em sua cabeça muitos pensamentos. Gostava de lavar louças, a água que brincava com seus dedos ensaboados, deixava mais leve seus medos. Deslizava os talheres entre as mãos, colocava os limpos no escorredor esticando o braço para mais uma remessa e com isso, logo, todos os garfos, facas e colheres estavam abraçados naquele cantinho.
Enfim, depois de alguns minutos, ela se afasta da pia, na barriga a marca deixada pela brincadeira com água, mas não se importava, ajeitou a blusa e foi até a sala, ligou a televisão e nada lhe atraiu. Sentou-se em frente ao computador, viu algumas notícias, leu uns e-mails e cumprimentou alguns parentes pelo MSN. Desistiu da conversa, o sono a seduzia mais que falas sobre o tempo. Desligou tudo e foi para o quarto, puxou o travesseiro, encontrou uma revista daquelas de famosos, em meio a tantos anúncios viu que haviam lançado um filme novo, gostou da sinopse e se empolgou, ligou para o cinema e viu se estava em cartaz, o pulo da cama era reflexo da resposta positiva.
Em frente ao espelho uma nova imagem, D. Luiza tirara sua blusa molhada e vestira um de seus vestidos florais, soltou os cabelos e na boca o inseparável batom carmim. Estava pronta para ver Kung Fu Panda!
Fila do cinema, ela, uma coca e uma caixa de pipoca, seus olhos fixos nos cartazes, mas ainda encantada por aquele gordinho lutador de olhos manchados. Atravessou a porta, tudo escuro, apenas algumas luzinhas vermelhas a guiar o caminho, olhou para o fundo e escolheu o lugar, ninguém ao lado. Subiu as escadas e assentou na poltrona central, logo abaixo da saída de luz. Abriu o refrigerante e brincou com o barulho da pipoca.
Filme começando, sombras lhe atrapalham a visão da tela, ela se contorce, gira a cabeça para os lados, estica os olhos e pessoas se aproximando, e pessoas se assentando, e pessoas desconhecidas ao seu lado. Não reparou na criatura, não queria perder os saltos do gordinho peludo, sorria como criança, estava feliz.
Todos já nos seus lugares e o filme a rodar, momento de silêncio, um adeus em meio ao despenhadeiro, no semblante de D. Luiza uma decepção, ela que gostava dos filmes infantis por somente terem alegrias, comoveu se ao ver uma cena triste, alguém havia morrido. Deixou cair os braços sobre o encosto da cadeira, mas sentiu algo diferente, estava sobre o braço daquele que ela mal havia visto, e em segundos se viu no olhar dele, mesmo naquela escuridão, ela se viu por outros olhos, seu corpo estranhamente arrepiou e em meio ao descompasso de coração e respiração ela desejou o ter visto antes.